As estratégias antiéticas do MBL, o ‘movimento que está mudando o Brasil’


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Kim Kataguiri é um dos líderes do movimento que ajudou a eleger Bolsonaro.

Foto: Rodrigo Capote/Bloomberg via Getty Images

Meses depois de ter seus líderes sendo denunciados por lavagem de dinheiro e ocultação do patrimônio, o MBL agora se vê envolvido em outra situação complicada. Uma série de três reportagens do Intercept revelou que o MBL atua nos bastidores com um rigor ético inversamente proporcional ao que costuma cobrar dos outros. Sustentadas por áudios trocados entre a cúpula, as reportagens mostram que o movimento interferiu na escolha dos participantes do Pânico da Jovem Pan, se mobilizou para passar pano para a roubalheira de Flávio Bolsonaro nas redes sociais e planejou dar um golpe na legislação eleitoral para ter um partido próprio.

Seus líderes até agora permanecem calados sobre as reportagens. Com a ajuda do silêncio da grande mídia, velha parceira do grupo, os paladinos da ética na política seguem focados em suas campanhas eleitorais como se nada tivesse acontecido.

Na primeira matéria, áudios mostram a cúpula do MBL se mobilizando para impedir que um dissidente do grupo participasse do programa Pânico da Jovem Pan. Nas conversas, fica claro o poder de influência do movimento sobre Tutinha, presidente da Jovem Pan, que também segue calado assim como todos os integrantes do Pânico. O MBL convocou até mesmo políticos com mandato como Joice Hasselmann e Kim Kataguiri para pressionar a emissora.

Em um dos áudios, o candidato à prefeitura de São Paulo Mamãe Falei, que foi o segundo deputado estadual mais votado no estado, conta para os integrantes do grupo que falou diretamente com o presidente da Jovem Pan para fazê-lo desistir de receber um desafeto do grupo na emissora. Para isso, Mamãe lançou mão de uma estratégia suja: imputou falsos crimes ao dissidente como invasão à mão armada da sede e destruição de um veículo do grupo. Ele confessou para a cúpula do MBL que inventou esses crimes para enganar Tutinha e conseguir o que queria. O tom quase orgulhoso do seu áudio mostra um despudoramento próprio do tipo de política que o MBL jurou combater.

A Jovem Pan se curvou de maneira vexaminosa e acatou o pedido, demitindo o homem que o MBL não queria ver no ar. Para o seu lugar, vejam só que maravilha, a Jovem Pan contratou dois integrantes do movimento alinhados à cúpula. Trata-se de uma concessão pública sendo usada para atender interesses políticos. A Jovem Pan cumpriu o papel de vassala do MBL.

A segunda matéria revela como o MBL relutou em abandonar o barco bolsonarista e como seus líderes planejaram mobilizar as redes sociais para aliviar a barra suja de Flávio Bolsonaro. O liberalismo de fachada e o verniz ético do grupo não resistiram ao escândalo da rachadinha envolvendo a família do presidente de extrema direita, cuja eleição foi apoiada maciçamente pelo MBL no segundo turno.

Os áudios mostram a cúpula traçando estratégias de como passar o pano para a corrupção bolsonarista sem dar muito na cara o oportunismo. Eles se viram numa sinuca de bico: como ignorar a roubalheira de um aliado político depois de passar anos posando de guardiões da ética e da moral na política? Renan Santos, o dono do MBL, propôs a seguinte saída: “(vamos) dizer que é corrupção, mas não escândalo – então, falar que é corrupção e, ao mesmo tempo, comparar com a do PT, falando que do PT é escandaloso, isso acho que é uma bola dentro tranquila.”

Ou seja, o líder máximo do grupo deu um jeito de relativizar um caso de corrupção envolvendo desvio de verbas públicas, lavagem de dinheiro e conexões com uma milícia do Rio de Janeiro. Os tais liberais modernos, que juram representar uma novidade na política, se mobilizaram para limpar a imagem de um governo reacionário que iniciava um projeto declarado de destruição da democracia.

Quando o bolsonarismo parecia que iria ruir, o MBL passou a ensaiar algumas críticas públicas para exibir uma falsa independência política. Mamãe Falei, que no debate entre os candidatos à prefeitura de São Paulo desta semana se mostrou o mais reaça de todos — inclusive mais que o candidato apoiado por Bolsonaro —, foi o que mais relutou em abandonar o barco: “se ficar batendo muito já vai parecer que nós estamos concorrendo com o governo.(…) Então eu acho que não é a hora. Deixa eles se afundarem um pouco mais”.

Fica claro que o que norteia as ações do MBL não são seus princípios e valores, mas o oportunismo político. Depois de ajudar a organizar a revolta do país contra a corrupção do último governo petista, o grupo se viu no papel de amenizar a revolta do país contra a corrupção da família de um presidente que eles haviam acabado de ajudar a eleger. Romper tão cedo com o bolsonarismo, depois de embalá-lo, se tornou uma escolha muito difícil para a molecada liberal. O episódio mostra que a revolta contra a corrupção, que sempre foi a principal marca do MBL, não passava de um golpe, um verdadeiro estelionato que alavancou suas lideranças para a política partidária.

A terceira matéria da série é a mais grave: o MBL planejou uma manobra ilegal para ter o seu próprio partido. A criação de um partido não é uma tarefa simples. Meio milhão de assinaturas registradas em cartório em todos os estados da federação são necessárias. Nos áudios, Renan dos Santos fala abertamente sobre a possibilidade de driblar essa dificuldade comprando um partido em formação. Assim, milhares de pessoas, que assinaram o apoio para a criação de um determinado partido, com determinada ideologia, seriam enganadas. O MBL cogitou cometer esse crime. Até o valor necessário foi levantado: R$ 500 mil, uma quantia grande que em nenhum momento das conversas pareceu um empecilho. Dinheiro não é problema para a molecada que não precisa prestar contas para os filiados, mas cujos líderes estão sendo acusados pelo MP de usar o movimento para lavar dinheiro.

A turma que surfou na onda antipolítica, que se dizia apartidária, elegeu seus próprios políticos, ajudou a colocar os extremistas no poder e por muito pouco não comprou ilegalmente um partido para chamar de seu.

Os áudios mostram que o grupo cogitou também outra alternativa: influenciar políticos para mudar a lei de criação de partidos. Pretendiam alterar a legislação eleitoral para atender unicamente aos seus interesses.  A ideia de um dos líderes do grupo era aproveitar a “bagunça” do governo Bolsonaro para “liderar muita gente e manipular para chegar em objetivos próprios nossos”.

Sem sucesso nessa empreitada, os jovens liberais decidiram se acomodar em um partido de extrema direita, o Patriota. A legenda, que é a segunda mais fiel aos projetos bolsonaristas nas votações no congresso, abriu as portas para o MBL e lhe deu o controle do diretório municipal. “Nós [do MBL] não usamos fundo eleitoral e não aceitamos negociata política. O Patriota nos abriu as portas dentro destas condições”, afirmou Mamãe Falei meses depois do movimento cogitar comprar ilegalmente um partido. Enquanto o MBL engana sua militância nas redes sociais posando de anti-bolsonarista, no mundo real eles dominam uma das legendas de aluguel mais bolsonaristas do país.

O MBL rompeu com o bolsonarismo, mas, por mais que negue, permanece dentro  da extrema direita no espectro ideológico. Não foi um rompimento por desacordo ideológico, mas uma estratégia política para manter o falso discurso de independência em pé. Basta ver as pautas das candidaturas dos seus principais líderes. Mamãe Falei iniciou sua campanha focado em acabar com a cracolância e empreendeu uma perseguição pública contra o padre Julio Lancellotti, que dedica sua vida a ajudar os moradores em situação de rua da região. Fernando Holiday segue com sua campanha centrada em pautas moralistas e ataques contra as pautas em defesa das minoria.

O MBL não tem a mesma força nas redes sociais que tinha durante os governos do PT, mas ainda tem forte apelo eleitoral. Hoje o movimento tem políticos eleitos e uma estrutura partidária suficiente para colocá-los como atores importantes dentro do jogo político. A candidatura Mamãe Falei, que tem chances remotas nesta eleição, servirá para alavancar seus candidatos a vereador em São Paulo e fortalecer o Patriota.

A série de reportagens do Intercept contou com o silêncio ensurdecedor na grande mídia, que simplesmente não a repercutiu. Depois de passar anos dando um palco nobre para os jovens liberais que queriam mudar o país, a imprensa se cala quando eles abraçam de vez a extrema direita e buscam o poder da maneira mais sorrateira possível. Ajudaram a fabricar o senso comum de que o MBL representa uma direita mais moderada, mesmo após o  grupo ter abraçado as pautas mais reacionárias do debate público.

Mas o extremismo do MBL não é um fato recente. Em 2017, Mamãe Falei falou: “Concordamos muito com o Bolsonaro em diversas coisas: revogação do estatuto do desarmamento, redução da maioridade penal… Concordamos em diversas pautas. Inclusive quando ele falou mal da CLT, eu quase soltei fogos na minha casa. Quando ele fala em criar leis antiterroristas que atinjam o MST, eu acho que é um ato de extrema coragem. Eu acho uma palhaçada quando começam a chamá-lo de racista e homofóbico”. Portanto, não é novidade que o MBL é essencialmente um movimento de extrema direita. Mesmo depois do escancarado reacionarismo, a grande imprensa seguiu tratando o movimento como uma renovação na política e lhe conferiu um verniz de moderação que, na prática, nunca existiu.

Graças a essa camaradagem, o MBL nunca se viu constrangido a ter que explicar a falta de transparência nas suas contas finaneiras ou os flagrantes casos de corrupção e desvio ético revelado pelos áudios. Mesmo agora que ficou claro que seus líderes são capazes de tudo pelo poder, até mesmo pensar em comprar ilegalmente um partido, o movimento segue blindado no noticiário. A fachada continua limpinha, e eles estão prestes a aumentar sua base de políticos eleitos. O grupo apartidário e independente, que jura ter o objetivo de tornar o Brasil mais liberal e menos corrupto, agora joga o jogo político usando as armas mais sujas que a politicagem pode oferecer.

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