Os impostos de Trump: mil escândalos em um


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O presidente Donald Trump em uma reunião na Casa Branca com procuradores-gerais estaduais ligados ao Partido Republicano, em 23 de setembro de 2020.

Foto: Oliver Contreras/The New York Times/Bloomberg via Getty Images

Os impostos de Donald Trump, finalmente revelados pelo New York Times no domingo, não são um escândalo.

Em vez disso, eles são uma explosão de muitos escândalos, como uma enorme exibição de fogos de artifício no 4 de julho, o dia da independência dos EUA. Escândalos gigantescos, pequenos escândalos, escândalos de médio porte — tantos escândalos que é difícil acompanhar cada ato individual de má-fé do presidente.

Mas vamos tentar. Aqui vai uma lista dos vários aspectos terríveis das declarações de impostos de Trump e como eles podem ser avaliados em comparação uns com os outros.

O escândalo horrível que todos entendem

De acordo com o New York Times, Trump pagou 750 dólares em imposto de renda federal em 2016 e 2017. O total de US$ 1.500 é suficiente para comprar uma van Ford Aerostar, ano 1996, com mais de 110 mil quilômetros rodados.

Além disso, diz o jornal, quando tudo é considerado, Trump “não pagou nenhum imposto de renda em 10 dos últimos 15 anos”.

Há duas possibilidades aqui. Talvez as várias deduções que Trump usou para recortar suas obrigações fiscais sejam legítimas e representem perdas reais, e ele quase não ganhou dinheiro na última década e meio. Nesse caso, ele é muito mais pobre do que afirma. Ou suas baixas contábeis são em grande falsas e, na verdade, ele é mesmo um bilionário — mesmo que seu patrimônio líquido seja menor do que ele gosta de se gabar constantemente.

Todos conseguem entender que a evasão fiscal de Trump é moralmente errada.

Embora seja divertido ridicularizar Trump por ser um fracasso espetacular nos negócios — e, de fato, em certo sentido ele é (veja abaixo) — a resposta é quase certamente a segunda opção. Dan Alexander, repórter da Forbes, que escreveu um livro inteiro sobre o império cafona de Trump, estima que o presidente tem US$ 3,66 bilhões em ativos e US$ 1,13 bilhões em dívidas, deixando-o cerca de US$ 2,5 bilhões no azul.

Todos podem, portanto, entender que a evasão fiscal de Trump é moralmente errada. Não importa se ele seguiu quaisquer “regras”, porque pessoas como Trump ditam as regras. Uma sociedade que permite que qualquer pessoa ultra-rica saia impune de uma situação dessas não está funcionando.

Além disso, não devemos cair na falsa sofisticação de acreditar que todos os super-ricos escapam impunes. Não é o caso. De acordo com os dados do IRS, as 400 pessoas que mais ganham dinheiro nos EUA pagam uma média de mais de 20% em impostos de renda federais. Não é tanto quanto deveria ser, mas é mais do que nada. Como aponta o New York Times, se Trump pagasse impostos como um integrante normal do 1% mais rico, ele teria enviado pelo menos US$ 100 milhões a mais para o Tesouro dos EUA nesse período.

Escândalos que podem ter consequências para a família Trump

Os super-ricos geralmente se envolve, na evasão fiscal, com suas equipes de advogados trabalhando para mantê-los do lado certo da lei. A família Trump tem um histórico de envolvimento no que parece ser evasão fiscal, violando as poucas regras claras que existem na estratosfera financeira.

Durante a infância de Trump, seu pai Fred transferiu grandes somas de dinheiro para Donald e seus irmãos, de maneiras que um especialista acredita que poderiam constituir fraude fiscal criminosa. O IRS limita a quantidade de dinheiro que qualquer pessoa pode receber como presente sem ter que pagar impostos. Mas Fred Trump abriu uma empresa que legalmente era propriedade de Donald Trump, seus irmãos e um primo. Fred Trump então fez sua própria empresa comprar todos os suprimentos da empresa de seus filhos a preços inflacionados.

A nova reportagem do New York Times identifica o que parece ser uma armação semelhante nos dias de hoje, na qual Trump empregou sua filha Ivanka e parece ter pago a uma empresa da qual ela é co-proprietária US$ 747.622 em “taxas de consultoria” (embora o Times não tenha feito essa conexão, sua reportagem revelou uma taxa de consultoria nesse valor e, em sua própria declaração financeira para trabalhar no governo, Ivanka Trump disse ter recebido exatamente esse valor como consultora). O IRS proíbe pagamentos de consultoria aos funcionários do governo, a fim de evitar a sonegação fiscal.

A reportagem do New York Times também identifica muitos outros aspectos dos impostos de Trump que clamam por uma investigação criminal. Trump deixou de pagar milhões em impostos sobre a propriedade de algo que parece ser uma residência do presidente, como se fossem despesas comerciais. Ele disse que os honorários pagos aos seus advogados que o representaram em questões políticos eram despesas de negócios. Mesmo o dinheiro que ele pagou para Stormy Daniels ficar calada pode ter sido ocultado como uma despesa comercial.

O escândalo do qual Trump apenas se aproveitou

Não é nenhum segredo que os EUA têm o que equivale a dois sistemas fiscais separados, um para os ultra-ricos e outro para todos os demais. Os assalariados normais têm seus impostos descontados diretamente de seus contracheques. Para os bilionários, a questão do que eles devem ao governo é mais como o início de uma discussão amigável.

Décadas de ataques liderados pelo republicano e cortes de verbas para o IRS levaram a uma situação absurda em que as pessoas que ganham uma média de 20 mil dólares por ano, qualificando-se para restituições, têm maior chance de passar por auditoria do que quem ganha muito mais dinheiro. Enquanto isso, de acordo com uma estimativa, US$ 7,5 trilhões em impostos não serão cobrados na próxima década porque o IRS simplesmente não tem os meios ou razão para fazer a lei ser cumprida contra pessoas poderosas.

Em um ambiente assim, Trump e seus advogados tinham todos os incentivos para forçar os limites das regras o máximo que pudessem, e nenhum incentivo para não fazê-lo.

O escândalo que parece maior do que é

Como assinala a reportagem do Times, os impostos de Trump mostram que ele deve centenas de milhões de dólares a seus credores. Muitas pessoas no Twitter ficaram surpresas com essa informação e expressaram suspeitas de que Trump está sendo controlado por forças obscuras às quais ele estaria preso.

Na verdade, os empréstimos de Trump sempre apareceram no relatório de divulgação financeira que os funcionários do Poder Executivo devem apresentar. Seu relatório de 2019 está aqui; os empréstimos aparecem na página 41. Isso não torna suas finanças completamente transparentes, mas fornece muitos detalhes, incluindo a quem ele deve dinheiro (principalmente o Deutsche Bank e uma empresa americana chamada Ladder Capital) e os termos do empréstimo.

Em outras palavras, ele não está em dívida com o Banco Central da Rússia, apenas corporações financeiras normais. Isso cria inevitavelmente conflitos de interesse, especialmente porque alguns dos empréstimos vencem em breve. Mas eles são conflitos de interesse regulares e sujos, não do tipo empolgante que envolve espionagem internacional.

O escândalo da incompetência de Trump

Todos os que estiveram vivos nos últimos anos entendem como Trump faliu seis vezes. Ele é completamente incompetente em tudo, exceto tuitar e aparecer na TV — embora isso tenha se revelado suficiente para ele se eleger presidente.

Trump é especialmente ruim nos negócios, como suas declarações demonstram. O que é notável sobre sua fortuna não é o quão grande ela é, mas como é pequena. Ele recebeu mais de US$ 400 milhões de seu pai ao longo da vida. É difícil calcular com precisão, mas se Trump tivesse simplesmente colocado esse dinheiro em um fundo de índice de mercado de ações de baixo custo, ele teria cerca de US$ 10 bilhões hoje. Em vez disso, graças a uma vida de atividades frenéticas e catastróficas, ele tem apenas o que se estima ser US$ 2,5 bilhões.

O maior e pior escândalo de todos

O escândalo mais perigoso e sutil envolvendo os impostos de Trump não tem a ver com Trump, mas conosco.

Em um debate no fim de setembro de 2016 com Trump, Hillary Clinton perguntou por que ele não tinha seguido a tradição e divulgado suas declarações de impostos. “Talvez”, disse ela, “ele não queira que o povo americano, todos vocês que estão nos assistindo hoje, saibam que ele não pagou nada em impostos federais”. Trump não negou que não tivesse pagado impostos. Em vez disso, apenas respondeu: “isso faz de mim uma pessoa esperta”.

“Agora sabemos que Trump não estava brincando sobre seu desprezo pelos EUA e todos os que vivem neles”.

Em uma democracia funcional, cheia de pessoas que se considerassem cidadãos que são parte de algo maior do que eles mesmos, isso teria acabado imediatamente com a campanha de Trump. Todos teriam recuado naturalmente diante de um candidato que anuncia que você é um otário se não passa a vida tentando ferrar com todo mundo ao redor. Mas, em vez disso, dezenas de milhões de eleitores tinham tão pouco respeito por si próprios e pelo lugar em que vivem que escolheram Trump de forma afirmativa.

Exatamente quatro anos depois, agora sabemos que Trump não estava brincando sobre seu desprezo pelos EUA e todos os que vivem neles. Também sabemos que essa confirmação não vai impedir dezenas de milhões de americanos de votarem nele de novo.
Podemos sonhar em aprovar leis exigindo que todos os candidatos à presidência divulguem seus impostos, ou processar Trump por evasão fiscal, ou reformar todo o código tributário. Mas nada disso importará se o maior problema não for resolvido: que grandes partes dos EUA odeiam a ideia básica de que somos um país que está nessa juntos.

Tradução: Maíra Santos

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